Lion: Uma Jornada Para Casa | Crítica

Como o vazio interfere na construção do homem

O reencontro com suas origens é uma busca que muitos costumam fazer em certo ponto da vida, relembrar o passado para refletir sobre o ponto em que se chegou. Uma tarefa difícil para alguém que não se lembra de seu ponto de partida. Baseado em uma história real, Lion: Uma Jornada Para Casa é sobre um jovem que chega à esse momento de reflexão sem um passado para ser analisado.

No fim da década de 80 o pequeno Saroo (Sunny Pawar) vivia com sua mãe e irmãos na região pobre de Ganesh Talai na Índia, fazendo pequenos bicos com o irmão para ajudar com a pouca renda. Em um desses serviços o garoto se perde de Guddu (Abhishek Bharate) e acorda no dia seguinte no outro lado do país, após dormir em um trem de carga. Tempos depois, vivendo um período na rua e em um orfanato, Saroo é adotado por uma família australiana, deixando para atrás seu local de origem. Guddu, nome que o pequeno gritava a plenos pulmões, aos poucos vai se tornando apenas uma longínqua lembrança na vida da criança.

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Anos depois reencontramos Saroo (Dev Patel), agora prestes a entrar na faculdade e desfrutando da educação e auxílio que conseguiu com sua família adotiva. Nesse período em que o jovem busca seu lugar no mundo ele sente ainda mais perdido, agradecido por aqueles que o receberam, mas sofrendo por uma família que ficou para atrás. Então através do Google Earth Saroo tenta decifrar sua trajetória, algo que parece inconcebível se não tivesse ocorrido de verdade.

O estreante Garth Davis trabalha bem a dualidade entre os diferentes ambientes dessas duas partes da história, mas o que é bem divido pela técnica, não muito se faz pelo ritmo. O segmento inicial repete alguns pontos de outra obra que lida com a mesma região, Quem Quer Ser um Milionário (2008) de Danny Boyle, porém, extrai vertentes próprias ao demonstrar que a pobreza local molda histórias semelhantes, mas com resultados que diferem pela sorte que algumas daquelas crianças carentes teve. O pequeno Sunny Pawar preenche a tela com seu carisma e o bom trabalho do diretor é saber direcionar esse talento infantil para o desenrolar dos acontecimentos, e não apenas como uma tática para conquistar o público com o encanto da criança.

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Quando encontramos Saroo adulto, seus pensamentos e indagações ocupam a tela, mais do que o personagem que as sente. Se a parte inicial depende do carisma de Sunny, o segundo segmento é salvo graças à atuação de Patel. O descendente de indianos transmite a angústia de alguém incompleto de maneira melhor do que as diversas situações que o longa o coloca para pensar. Nicole Kidman entrega uma boa performance, mas nada que justifique sua indicação ao Oscar. Quando se fala da grande premiação Lion também encontra outras incongruências, como colocar Dev Patel como coadjuvante, mesmo ele sendo uma parte do personagem que move a história ou a indicação pela fotografia, que parece confusa, escurecendo tanto a Índia como a Austrália sem um motivo aparente, fazendo pouco contraste entre as duas. Rooney Mara também traz algo incômodo, atuando sempre em um tom diferente de Patel, tornando as cenas conjuntas entre eles estranhas.

Lion até possui alguns defeitos que o fazem o mais fraco entre os indicados a Melhor Filme de 2016, mas conseguiu a vaga por fazer de uma história comum – se tirarmos o elemento da internet, a busca por um passado já foi tema de diversas obras – algo próprio, principalmente pela emoção. A trilha sonora é um bom exemplo disso, fugindo do tradicional panteão Bollywoodiano (com exceção da dançante Never Give Up da cantora Sia) para algo bem contido e sentimental. Lion não é apenas sobre uma jornada para casa, mas também sobre a aceitação de várias origens e suas importâncias para a formação do ser.

Avaliação: ÓTIMO

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