Jackie | Crítica

A tragédia e a máscara da ex-primeira-dama

A morte de John F. Kennedy foi uma das tragédias mais marcantes da história norte-americana e uma personagem importante desse evento foi a ex-primeira-dama Jacqueline Kennedy. Ela que já sofria o peso de agir como o exemplo de mulher a ser seguido, graças ao cargo importante de seu marido, com a morte do mesmo Jackie teve um novo calvário, superar seu luto em frente aos holofotes do mundo.

Jackie retrata as ações da primeira-dama imediatamente após o trágico assassinato. Com isso o filme de Pablo Larraín se diferencia de outras biografias por não retratar a vida de Jacqueline, mas sim a morte de uma vida perfeita que ela fez o mundo acreditar. O diretor chileno inclusive resolve filmar com um estilo documental, como se o público fosse as câmeras que cercavam a moça. Sempre a colocando no centro da tela, o propósito da obra é mostrar os acontecimentos pela visão da sra. Kennedy.

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O tom de documentário, porém, atrapalha o ritmo da história. Os flashbacks que dão contexto às memórias de Jackie tomam muito tempo de tela, tornando o filme cansativo em diversos momentos, mesmo com sua pequena duração. A introspectiva trilha de Mica Levy possui méritos pela originalidade, mas é um dos fatores principais desse ritmo lento. Ela percorre o ambiente como uma tragédia contida que ao ser usada em excesso prejudica o andamento da história. Por ser uma trilha curta (o álbum oficial dura apenas 34 minutos), usar ela a todo momento acaba por soar repetitivo.

Quem carrega o filme é Natalie Portman. A sua atuação é essencial para que o filme funcione já que ele se sustenta na presença de Jackie. Além da transformação física, Portman consegue transmitir nuances da primeira-dama que ajudam na caracterização da personagem. Até mesmo o esforço da atriz para recriar a fala pausada da Jacqueline real tem uma função. Por mais  que seja visível o desconforto de Natalie ao reproduzir essa característica, a Jackie vista por todos é também uma atuação, a imagem da esposa perfeita que mais do que nunca precisa ser reforçada, mesmo com a dor que ela sofre.

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Os figurinos de Madeline Fontaine são importantes para essa máscara de Jackie. Após o assassinato Jacqueline não se desfaz do vestido ensanguentado, assumindo aquilo como um manto para que todos vejam seu sofrimento, um reflexo de alguém cuja vida se tornou um espelho para todo um país. A fotografia do francês Stéphane Fontaine usa um tom nublado e granulado, deixando o ambiente em luto, um dos poucos respiros do estilo documentário que o filme assume.

Com um bom trabalho de produção Jackie é uma cinebiografia que foge dos padrões, mas se preocupa tanto com a imagem da viúva de Kennedy que se distancia da mulher por trás do luto. Por mais que Natalie Portman se entregue ao papel, o filme termina sem que nós conheçamos a verdadeira Jackie.

Avaliação: BOM

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