A Qualquer Custo | Crítica

O faroeste do pós-crise americano

Os westerns americanos foram marcantes por representarem a América pré-sonho americano, uma terra sem lei com uma economia quebrada. Até hoje esses resquícios são vistos pelo país, tornando o faroeste clássico em um tema ainda atual. As ferramentas podem ter mudados, mas o clima permanece o mesmo em A Qualquer Custo.

O filme retrata o sul do Texas, região que ainda sofre com os resultados da crise imobiliária que transformou fazendas em pleno crescimento em planícies abandonadas. Quem se aproveita dessa situação são os bancos, explorando os cidadãos locais e cobrando suas dívidas como os coronéis do século retrasado. Vítimas das circunstâncias os irmãos Howard se tornam ladrões de banco em busca de recuperar o que perderam para as grandes corporações.

A Qualquer Custo

Após uma série de assaltos certeiros os irmãos começam a ser caçados pelo xerife da cidade (Jeff Bridges) e seu parceiro de origem indígena (Gil Birmingham). São os arquétipos de um faroeste antigo transportados para o cenário atual. Centrado nessas duas duplas o roteiro de Tyler Sheridan (Sicario: Terra de Ninguém) não toma lado no conflito e discute as razões de cada um nesse quarteto de interesses. Enquanto Toby (Chris Pine) parece ser o lado racional dos irmãos é o espirituoso Tanner (Ben Foster) o responsável para que os roubos tenham sucesso. Assim como os ladrões divergem entre si, a parte policial também sofre de um constante embate, vindo principalmente do preconceito sulista do xerife com seu parceiro “vermelho”.

Os dois fora-da-lei aos poucos ganham a simpatia da população, vistos como os heróis que ousaram desafiar o grande opressor. O próprio questionamento sobre a linha tênue da justiça é visto em como a história coloca o público a torcer pelos bandidos ao invés da força policial, uma visão atual sobre o modelo antigo de um faroeste, discutindo a área cinza em que o homem atua. Cabe destacar a trilha de Nick Cave e Warren Ellis que junto da seleção de músicas dá ao filme um tom country-rock que complementa o ritmo da história e essa mistura de motivações.

A Qualquer Custo

A direção de David MacKenzie usa planos longos e abertos que mostram o grande deserto que tomou conta da região do Texas. Máquinas petrolíferas paradas, comércios abandonados, uma região consumida que parece ter voltado ao seu ponto de origem. Nas cenas de ação as caminhonetes são os novos cavalos, alinhados para a caça do bandido fugitivo. McKenzie também consegue ordenar seu elenco de forma que cada um complemente sua respectiva dupla, sem ignorar suas questões isoladas. Com destaque para Ben Foster que direciona sua atuação sempre excessiva para o humor imprevisível do bandido Tanner. Chris Pine assim como Birmingham estão bem mais comedidos, porém fortes o suficientes para entregarem a melhor atuação da carreira de ambos.

A Qualquer Custo não mostra nenhuma grande pretensão, preocupando-se apenas em ser um western atual e funciona justamente por essa simplicidade. Todos os elementos de um bom faroeste estão lá, sendo integrados a jornada dos irmãos Howard e nunca assumindo destaque perante os mesmos. O filme é uma lembrança de que no mundo globalizado ainda existem locais abandonados pelo sistema, até mesmo na “grande América”.

Avaliação: EXCELENTE

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